CARNAVAL SEM AUTORIA: BRASÍLIA APAGA A PRÓPRIA MEMÓRIA MUSICAL AO EXCLUIR BANDAS LOCAIS


Linha fina: Banda Imagem e Trem das Cores, fundadoras da Liga dos Blocos em 1997, ficam fora do DF Folia 2026 enquanto a programação prioriza repertórios cover e ignora a música autoral produzida no Distrito Federal.

Brasília, fevereiro de 2026 – Ao privilegiar blocos carnavalescos sem música autoral, o DF Folia vem transformando o Carnaval da capital em um evento sem identidade, esvaziando décadas de história cultural construída por artistas locais. O Carnaval de rua brasileiro nunca foi apenas festa. Ele é linguagem, memória, identidade e resistência cultural. O que atravessa gerações não são apenas os dias de folia, mas as músicas autorais que marcam épocas, contam histórias e se tornam símbolos de um território.

A música é o elemento que transforma o Carnaval em memória coletiva. Desfiles passam, palcos são desmontados e trios elétricos se vão, mas as canções permanecem. São elas que registram o tempo vivido, que fazem o público cantar décadas depois e que constroem identidade cultural.

Sem música própria, não há legado.

Sem legado, não há Carnaval enquanto patrimônio cultural.

A música carnavalesca também é elemento de pertencimento social. Quando um bloco possui canções próprias, o público deixa de ser espectador e passa a ser protagonista, cantando junto, reconhecendo refrões e se identificando com aquela manifestação.

Mesmo com dezenas de blocos financiados com recursos públicos, o Carnaval de Brasília vem adotando um modelo que despreza a música autoral produzida no DF, priorizando blocos baseados quase exclusivamente em bandas cover e repertórios importados, sem vínculo artístico, simbólico ou histórico com a capital federal. O resultado é um Carnaval cada vez mais genérico, desconectado da sua própria identidade.

Nos grandes carnavais do Brasil, a música autoral é o eixo central da memória coletiva. No Rio de Janeiro e em São Paulo, os sambas-enredo eternizam narrativas e personagens. Em Salvador, músicas autorais definem a identidade de cada edição do Carnaval. No Recife, o frevo ocupa as ruas como expressão autoral própria. A história dos grandes carnavais do Brasil é contada por músicas autorais.

Hoje, em Brasília, praticamente apenas o Pacotão mantém a tradição contínua da criação e valorização de músicas autorais. Fora essa exceção, a música autoral praticamente desapareceu da programação oficial.

A situação se agrava com a exclusão de blocos e bandas que sempre defenderam a criação autoral no DF, como a Banda Imagem e o Trem das Cores, ambos fora da programação oficial do DF Folia 2026.

Não se trata de iniciativas ocasionais. Esses grupos participaram da fundação da Liga dos Blocos Tradicionais, Bandas e Trios Elétricos de Brasília em 1997, contribuindo diretamente para a estruturação do Carnaval de rua de Brasília.

Ao deixá-los de fora, as comissões de seleção sinalizam um modelo que ignora a autoria musical como critério cultural.

Não se trata de xenofobia cultural. A circulação de artistas de outras regiões é legítima. O problema está na substituição da produção local por um modelo sem compromisso com memória e identidade.

“Sem música autoral, não há memória cantada. Sem memória cantada, não há identidade cultural. Sem identidade, o Carnaval se reduz a um evento descartável”, afirma Cacá Silva, fundador da Banda Imagem.

“A política pública de fomento precisa responder: quem está criando hoje as músicas que contarão a história do Carnaval de Brasília no futuro?”, questiona.

Brasília precisa decidir se quer um Carnaval com alma, identidade e memória — ou apenas um calendário de eventos sem história para contar.

Sobre a Banda Imagem

A Banda Imagem é uma das pioneiras do Carnaval de rua de Brasília, com 35 anos de trajetória completados em 2026, repertório autoral consolidado e presença contínua nas plataformas digitais.

Contato para a imprensa

Cacá Silva – Banda Imagem

Telefone/WhatsApp: (61) 9 9664-3252

E-mail: bandaimagem.df@gmail.com